Um poema “concreto”

Em 2022 escrevi um haicai para a estação do outono e buscava alguma forma concreta de apresentá-lo. Pois, no mesmo ano, achei um formato especial de caderno para tal haicai e não hesitei em usá-lo como suporte de escrita e exposição. Falo de um haicai experimental, que toma a forma de um caderno-objeto em andamento. Como é possível observar, na fotografia que acompanha o presente texto, o haicai está inscrito no espaço da arte de capa do caderno, precisamente sobre uma imagem ilustrativa da estação já referida. O inscrevi pensando nos haicais japoneses que vêm acompanhados de pinturas ornamentais, conhecidas na tradição oriental como haigas. Assim, contemplando a relação longínqua dessa forma de poesia com o mundo das imagens e da natureza, tomei a arte de capa em questão como haiga do haicai que apresento. Neste caso, através do corte da própria palavra “hai-cai”, imaginei o poema como uma coisa que se põe ao mesmo nível daquele instante icônico do outono, no qual as folhas mudam de cor e caem. Esta é a imagem que permeia o poema e ao mesmo tempo envolve a identidade visual do caderno, incluindo seu modesto volume de 48 folhas. E aqui entra outro ponto a ser observado: o caderno propriamente dito. Paralém da relação direta e analógica entre palavras e folhas, caindo na superfície da capa, pontuo o objeto “caderno” como parte estruturante na construção de sentido do haicai. Quer dizer, embora esteja ao nível das folhas da fotografia de capa, a inscrição poética também vem como um gesto que busca “pegar” o caderno como um todo. Por acaso ou não, foi como achar uma metáfora visual e palpável acerca do outono e da própria origem material do caderno, tendo em vista que suas folhas internas algum dia vão amadurecer e amarelar tal qual as folhas estampadas em sua nova arte de capa. Falo de uma perspectiva de síntese (sensível e conceitual) das folhas externas e internas, bem como da combinação efetiva do haicai com o corpo do caderno. Nessa medida, mesmo sem saber quando ou onde, creio que tal haicai a de alcançar sentido pleno mesmo só à longo prazo, isto é, à proporção que todas as folhas envolvidas nessa estória mudem de cor e sentido… coisa que só o tempo dirá. Até lá, concluo meu brevíssimo relato com o próprio slogan do caderno (situado na contracapa), que me parece cair bem no clima desse haicai para o outono: “A beleza da vida está na natureza e nas coisas simples!”. Eu, por minha vez, acrescento que a beleza do haicai está na natureza e em coisas simples como esse caderno. E você? O que acha desse haicai, caiu bem aqui?

Diego Dourado

Porto Alegre (RS), Brasil, 2024

Haicai para o outono (2022–25), Diego Dourado

Pintura sobre arte de capa de caderno

140mm x 202mm / 48 folhas

Foto: Jessica Dachs


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