Por: Isaac G. Souza
Gostaria, neste ensaio, de pensar aproximações e distanciamentos entre jornalismo e literatura a partir da forma como ambos os campos se relacionam com o tempo. Naturalmente, o gênero de jornalismo a que me refiro é o jornalismo escrito.
Uma noção inicial nos informa que a escrita jornalística, por definição, preocupa-se e pertence ao imediatismo da notícia, enquanto a escrita literária busca, refere-se e pertence à eternidade do espírito humano, da arte ou, no mínimo, ao tempo dilatado da cultura. No entanto, há casos em que essa diferenciação simplista é distorcida, negada, superada, desrespeitada — e das fronteiras borradas entre as escritas jornalística e literária vêm à luz formas de escrita peculiares.

1 Escrita, tempo e verdade
Imagina-se que exista uma diferença crucial entre a escrita jornalística e a escrita literária: uma seria artística, a outra, instrumental. O cerne dessa distinção se encontra na forma como ambas as práticas de escrita se posicionam em relação ao tempo: a escrita jornalística teria seu compromisso com a data de hoje — o amanhã não lhe pertence; a escrita literária, como gesto artístico, buscaria alcançar o universal e o eterno.
Dessa diferenciação basilar derivariam outras de igual importância.
- Diferença de função.
- A escrita jornalística teria uma finalidade precisa: informar.
- A escrita literária, nem tanto — por se propor como um trabalho refinado do espírito, ela mais quereria refletir, quiçá ensinar, em todo caso, representar as complexidades humanas, os tipos sociais, os problemas fundamentais da vida.
- Diferença de estatuto.
- Epistemologicamente, a escrita jornalística teria uma responsabilidade técnica e ética com a “verdade dos fatos”, a veracidade.
- Já a Literatura, com uma verdade mais ampla e difusa que dispensa o dado objetivo em favor da verossimilhança. Quer dizer, quando um jornalista narra um homicídio, ele narra um homicídio específico e tem compromisso com as informações e circunstâncias daquele fato: um indivíduo real foi morto e o jornalista deve responder, com base em fontes: quem, onde, quando, por que motivo, de que forma. Em contrapartida, quando um escritor narra um homicídio, ele narra o conceito do homicídio. O homicídio fictício deve em sua generalidade de alguma forma representar todos os homicídios da história. Nunca um homem chamado Rodion Românovitch Raskólnikov assassinou a machadadas duas senhoras em um quarto ordinário de São Petersburgo, mas nesse crime arquetípico narrado por Fiodor Dostoievski estão esteticamente representados todos os crimes, todas as angústias, todos os delírios, todas as culpas, da Modernidade.
- Diferença de postura.
- Em suma, o jornalista deveria, segundo essa visão, recusar-se a imaginar, julgar, subjetivar e generalizar os acontecimentos
- — enquanto o escritor teria mesmo essa obrigação.
A literatura estaria para o sonho; o jornalismo, para o real. O escritor seria essencialmente um artista; o jornalista, um técnico. Ao escritor, o direito e o dever de criar; ao jornalista, a tarefa de reportar. A literatura, responsável por uma verdade atemporal, subjetiva e ampla; o jornalismo, por uma verdade datada, objetiva e específica. A cada tipo de escrita seu próprio tempo e verdade.
Remixando uma interpretação do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, ao pensar criticamente sobre as relações entre história e literatura a partir da arquétipos de gênero, a literatura seria feminina, o jornalismo, masculino. Porém, tal como ocorre com as identidades de gênero, há regiões ambíguas, limítrofes e transicionais, zonas de fronteira em que as diferenças entre esses tipos específicos de escrita se esfumaçam. São acontecimentos de discurso, práticas da linguagem que não pertencem exclusivamente a um campo nem a outro.
2 Jornalismo e literatura, filhos da modernidade
Um primeiro mito que precisamos confrontar para entender essa diferença na relação com o tempo entre jornalismo e literatura é o de que o jornalismo seria uma prática relativamente recente, enquanto a literatura seria milenar. Michel Foucault já demonstrou que a noção de Literatura é uma noção moderna, faz parte das tecnologias modernas de gestão do saber, remontando sua gênese a meados do século XVIII.
Quando pessoas como Sófocles ou Safo, Virgílio ou Ovídeo, Dante ou mesmo Shakespeare e Voltaire escreveram seus textos, eles ainda não tinham em mente nenhuma noção como “literatura”. Esses recortes distintos da história da cultura organizavam o saber de outras formas, sob outras nomenclaturas e sistemas de valores, e a inclusão de certas obras do passado (e não outras) sob o rótulo de Literatura (e não outro) é uma operação arbitrária totalmente derivada das necessidades e dos jogos de poder na modernidade (ou, para usar a periodização de Foucault, na Idade Clássica).
O que impediria que Heródoto, chamado “pai da história”, fosse classificado como jornalismo, literatura ou até mesmo filosofia? Hipócrates, nomeado “pai da medicina”, o que impede que seja citado entre os filósofos gregos antigos? Em que, fundamentalmente, sua teoria dos humores tanto diverge de outras como a arché aquática de Tales de Mileto, aérea de Anaxímenes ou do ápeiron de Anaximandro? É a capacidade política dos representantes de uma disciplina que determina o seu poder de reivindicação.
Objetivamente, a organização de certos textos sob a etiqueta de Literatura — o que compreende a invenção de uma “tradição”, e um disciplinamento do tempo — data do mesmo período em que surgem os jornais, e com eles o que se chamaria jornalismo. Ambas as disciplinas (não me refiro a “disciplina acadêmica”, mas a modos específicos de praticar e controlar a escrita) são decorrentes da revolução tecnológica/cultural desencadeada pela invenção da imprensa.
No início da Modernidade (final do XVIII, início do XIX) — em parte pela expansão das religiões protestantes, em parte pelas demandas técnicas da Revolução Industrial — a alfabetização se universalizava. Com isso, a escrita e a leitura paulatinamente deixavam de ser saberes secretos de poucos escolhidos e se tornavam uma ferramenta cotidiana de burgueses e de certos profissionais — além de ferramentas de propaganda política.
É nesse cenário que surge, num esforço de distinção, a figura do “escritor”, o literato, como aquele que domina a escrita em um nível superior, com uma profundidade e uma autenticidade inalcançáveis para redatores comuns — numa palavra, um artista. A emergência dessa figura também está atrelada ao culto romântico do gênio e a ela se associou a leitura que o século XIX fez do Renascimento, a partir de obras como de Jacob Burkchardt.
2.1 A questão do autor no jornalismo e na literatura
Atrelada a esses pilares culturais — e em boa medida ideológicos — a formação da Literatura trouxe consigo a importante noção de autoria. Uma das características da “autoridade” (capacidade de ser autor) é a equação “obra = nome próprio”.
Nesse sentido, nem todos que escrevem são autores — só existe autor quando se supõe que o nome que assina o texto é parte do sentido do texto de tal forma que não sabemos se é o texto, como obra, que define a autoridade do autor, ou se é o nome do autor, com sua autoridade, que define o texto como obra. Michel Foucault e Roland Barthes gastaram boa quantidade de tinta discutindo tais “mistérios”.
Certo é que, uma vez que a função-autor funciona, ela serve para demarcar o território de uma disciplina e para classificar artefatos de escrita. Não temos dúvidas se um texto é jornalístico, desde que tenha sido escrito por um jornalista; sabemos que é poesia se foi escrito por um poeta; será certamente Literatura, se for produto de um “escritor”.
Mas note-se: só recentemente — em geral, a partir dos anos 1960 — passou-se a admitir o jornalista como um possível autor. A noção de autoria trazia consigo as ideias de autenticidade, originalidade, criação e, pela herança romântica, subjetividade. Todos esses atributos eram incoerentes com a expectativa imposta à prática jornalística, de quem se esperava objetividade, neutralidade e factualidade. O jornalista não deveria nem poderia inventar, criar, apenas transmitir, reportar. No máximo, havia escritores que publicavam textos em jornais.
Nos anos 1960, porém, ao mesmo tempo em que certas correntes de pensamento, sobretudo na França, assumiram adventos como “a morte do romance” e “a morte do autor”, no campo do jornalismo passou-se a afirmar a subjetividade e a invenção. Tendências mais ou menos difusas como o new journalism, o jornalismo gonzo e, no Brasil, o jornalismo alternativo romperam com a noção de objetividade e neutralidade jornalística e abriram espaço para aproximações entre jornalismo e literatura. Grandes reportagens com narrativas romanceadas passaram a ser publicadas, não como romances, mas como — reportagens.
Apesar dos elegantes, ácidos e volumosos trabalhos de Tom Wolfe e de uma extensa biblioteca de biografias produzidas por jornalistas falando enquanto jornalistas — que se tornariam um verdadeiro gênero editorial — o exemplo mais acachapante ainda é Medo e delírio em Las Vegas, de Hunter S. Thompson. Nessa reportagem/romance, publicada em duas partes na revista Rolling Stones em 1971 e em livro em 1972, e fortemente influenciada pela estética e técnica beat, o autor faz da cobertura de um rali o relato surreal de uma viagem a Las Vegas pelo prisma de todo tipo de drogas e brutalidades.

É como se o aparente esgotamento da Literatura em meados século XX, conduzido por sucessivos trabalhos desconstrutivos, como os de Joyce, Faulkner, o nouveau romani e a própria Geração Beat, tivessem deixado no território da escrita um vácuo que estava sendo preenchido por jornalistas em suas próprias jornadas de desconstrução do jornalismo.

3 Promiscuidades entre jornalismo e literatura
O que acontece na cultura dos anos 1960, segundo o historiador Edwar Castelo Branco, é uma “complexificação da linguagem”. As palavras se multiplicam, a um só tempo, para dar conta das realidades mais complexas de um mundo polarizado, altamente tecnológico e conectado, mas também para erigir novas formas de experiência e subjetividade. Assim, uma fórmula como “jornalismo gonzo”, de um lado, serve para designar práticas errantes, inominadas, no interior do jornalismo, mas, por outro, exprime a recusa de certos sujeitos por se deixar capturar pelo sentido de “velhas palavras”.
Se simplesmente “jornalismo” não podia descrever ou classificar uma escrita que, no interior de revistas e jornais, opera livremente com a incerteza, a intimidade, a alucinação e a ficção, a palavra “literatura” era recusada, por sua associação com o conservadorismo, a tradição e noções reacionárias, como “alta cultura” ou “cultura erudita”.
Vem dessa necessidade de afirmar sua posição nas cartografias políticas da cultura parte do ímpeto da década de 1960 por (re) nomear o mundo. Mas isso não quer dizer que a década de 1960 inaugurou os contatos promíscuos entre as diferentes disciplinas. De fato, como filhos da modernidade e da imprensa, o jornalismo e a literatura têm zonas intersticiais e de mútua contaminação desde os seus começos.
3.1 O romance moderno e o jornal
O gênero moderno do romance (descartando aqui formas de escrita ficcional anteriores que usaram o mesmo nome, mas eram essencialmente distintas, como os “romances de cavalaria”) nasceu nas páginas dos jornais como romance de folhetim. Os mais cultuados nomes da literatura — de Balzac a Machado de Assis — praticaram o romance de folhetim e muitas de suas obras posteriormente reunidas em livro saíram à luz primeiro encartadas em prosaicas gazetas.
Assim, aquela afirmação inicial de que a literatura se atentaria a um tempo expandido enquanto o jornalismo se dirigiria a um leitor ansioso por novidade não se sustenta já na raiz da literatura moderna. O autor de romances já era um escritor que atendia às demandas diárias ou hebdomadárias de seu púbico leitor. E, nesse sentido, já existe uma ranhura no mito do autor criador absoluto, posto que o formato de publicação em episódios permitia ao autor verificar o impacto e a aprovação de sua narrativa junto ao público, ajustando-se às expectativas de forma e conteúdo.
3.2 A crônica brasileira, o gênero híbrido
A crônica, considerada por muitos críticos como o gênero literário nascido e desenvolvido no Brasil, nasceu quase como uma racionalização de escritores frente aos desafios da escrita “a toque de caixa”. Como se seguissem o seguinte raciocínio: “Se nomeio isto como literatura, terei de me comprometer com os altos padrões técnicos, estéticos e espirituais da literatura. Mas, como o prazo para entrega não me permite o tempo necessário para a maturação de um texto literário, e como isso não é de forma alguma um texto jornalístico, então vou chamá-lo por outro nome”.
Aos poucos, muitos escritores brasileiros adaptaram-se à dinâmica da escrita veloz e se tornaram especialistas no comentário e narrativa ardilosos, exímios na arte de criar efeitos estéticos (geralmente de humor) com frases rápidas e certeiras e de encerrar um raciocínio sagaz em um número restrito de palavras. Forjou-se o que hoje é considerado um gênero literário, mas cuja forma, matéria e técnica são híbridos de literatura e jornalismo.
3.3 Um tipo específico de escritor
Outro mito que se precisa confrontar, a ideia de uma escrita jornalística neutra e objetiva é debitária do espírito “cientificista” do século XIX. No entanto, considerando todos os desenvolvimentos e críticas internos às Ciências Humanas de modo específico — e às Ciências como um todo, a partir da mecânica quântica — tornou-se insustentável a noção de objetividade em qualquer área do conhecimento.
Assim como um historiador, um etnólogo, um sociólogo, qualquer investigador/intérprete/narrador (inclusive economistas, estatísticos e outros que se presumem supralunares pelo uso prioritário de ferramentas matemáticas), o jornalista pode ser, no máximo, criterioso e honesto quanto a seus métodos e visões de mundo. Ele pode validar suas afirmações por meio de documentos diversos, do cruzamento de dados e abrir-se ao debate público e à crítica dos pares. Mas sua operação será sempre carregada de subjetividade, desde a escolha do objeto de investigação e da seleção e tratamento dos documentos e dados até as diretrizes teóricas (filosóficas, religiosas, ideológicas) de sua interpretação e as decisões tomadas na construção da narrativa final (o artigo) — a escolha das palavras, a ordem em que os acontecimentos são apresentados, o que é destacado e o que é deixado de fora.
Assim como a fotografia não é o simples produto de uma “lente objetiva” — pois ela é resultado da decisão subjetiva do fotógrafo de apontar a câmera para uma direção e não outra, a partir de certo ângulo e não outro, de fazer determinado enquadramento e não outro —, assim também a linguagem jornalística, por sua própria condição de linguagem, não é uma operação racional, neutra e objetiva. Ela tem história, ela envolve a história de quem a produz e ela decorre de todo um conjunto de decisões subjetivas — incluindo decisões estéticas, exatamente como a literatura. O jornalista nunca foi “o outro” do escritor, mas um tipo específico de escritor.
4 O jornalismo como trincheira cultural (e literária)
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No Brasil, nas décadas de 1960 a 1980 principalmente, adveio um tipo de jornalismo que foi nomeado como “jornalismo alternativo”. Quase como uma contraparte à “poesia marginal” e ao “cinema marginal” do mesmo período, o jornalismo alternativo se propunha como uma forma de expressão mais livre e autêntica dentro do jornalismo, sem compromisso com sua indústria correlata.
Considere-se que, se existe a literatura, existe a indústria editorial e que existe, portanto, um sistema de disciplinamento dos discursos que circulam no interior de tal indústria. Se existem filmes, existe a indústria cinematográfica e é de se esperar que tal indústria possua filtros. No que se refere ao jornalismo, é mais que evidente que grandes corporações de amplo alcance controlam o que se pode chamar de “indústria de notícias”.
Tendências como “jornalismo alternativo” e “poesia marginal” serviam como táticas de praticantes da escrita que visavam, com menos recursos e por meios heterodoxos, existir no “fora” do jornalismo e da literatura standard. Com isso, abriam-se perspectivas e possibilidades de forma e conteúdo — dizia-se o indizível, pensava-se o impensável, fazia-se o proibido.
A poesia marginal deixou uma duradoura impressão mais mítica do que realmente estética na história da literatura brasileira. Em parte, em decorrência dos próprios meios precários de reprodução dos textos (o mimeógrafo), em parte pela ausência de padrões estéticos que lhe era fundamental, pouca coisa sobreviveu do muito que se escreveu. Nomes como Paulo Leminski, Ana Cristina César, Chacal e alguns poucos outros, ganharam repercussão nacional, muito por sua posterior integração aos catálogos editoriais de poesia.
Em comparação, o jornalismo alternativo foi mais eficiente. Revistas como O Pasquim, Movimento, Casseta Popular, Planeta Diário e outras tiveram boa longevidade e regularidade, e em seus auges chegaram a circular alguns milhares de cópias brasil afora. Também chamadas de “mídias nanicas”, em contraponto com aos gigante mass media corporativos, essas publicações se tornaram verdadeiras trincheiras culturais de enfretamento tanto da Ditadura Militar-empresarial de 1964, quanto de ideologias e estéticas conservadoras — verdadeiros laboratórios e celeiros de novas estéticas e estilos.
Mas, se retrocedermos um pouco no tempo, veremos que páginas de jornal já serviam como usina de ideias artísticas pelo menos desde os anos 1950. Um precursor do jornalismo alternativo sem dúvida é o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil que começou a ser publicado em meados da década de 1950 e que trouxe em suas páginas diversas novidades gráficas e teóricas, alinhando sua estética ao movimento concretista e sendo espaço dos mais atuais debates estéticos. A coluna Geleia Geral de Torquato Neto, no mesmo Jornal do Brasil, é outro exemplo de espaço jornalístico convertido em trincheira cultural e experimento de escrita que viola as fronteiras entre o jornalismo e outras formas de escrita.
5 Maranhão: o caso Guarnicê
No documentário “Guarnicê, uma história para contar’, o escritor Sebastião Oliveira diz, em 2022, a respeito dos jovens que editaram e escreveram o suplemento/revista Guarnicê na cidade de São Luís,na década de 1980: “Eles pertencem à história da Literatura. Se pertencem à Literatura, só o tempo vai dizer. Ainda é muito cedo.”.
O Guarnicê foi um exemplo de jornalismo alternativo no Maranhão. Publicado entre agosto e dezembro de 1983 como um suplemento dominical no jornal O Estado do Maranhão e como uma revista independente — primeiro semanal e depois mensal — entre janeiro de 1984 e dezembro de 1985, era editado por Celso Borges, Joaquim Haickel, Roberto Kenard, Cordeiro Filho e Érico Junqueira. Contou, ao longo de sua história com mais de 40 colaboradores, homens e mulheres, com textos que iam da crônica e do artigo de opinião á poesia e crítica literária, passando pela sátira, conto e baixaria. Inovadora — ao menos no contexto da imprensa maranhense — do ponto de vista gráfico, usava diversos tipos de fontes, experimentava diagramações e incluía charges, desenhos e fotografias.
Foi um autofalante para certa juventude maranhense que morava em São Luís e tinha acesso a algum capital cultural, permitindo que se posicionassem no espaço público fazendo uso de sua própria linguagem e exprimindo suas ideias, vivenciando a mítica ‘abertura democrática” na primeira metade da década de 1980. O Guarnicê inspirou outros jovens em suas próprias jornadas de ruptura, como os que se juntaram em torno do nome Academia dos Párias, e grosso modo pode ser entendido como um experimento estético na fronteira entre o jornalismo e a literatura.
Um horizonte do discurso no Guarnicê era o enfrentamento à Academia Maranhense de Letras, associada e reduzida ao conservadorismo, reacionarismo e diletantismo. Como alternativa, os jovens que formavam o Guarnicê apresentavam a si mesmo como portadores de uma nova linguagem e uma nova postura frente ao mundo e à arte. Ou seja, ao fazer jornalismo, eles também se apresentavam como escritores e poetas, borrando e transgredindo consciente e intencionalmente as fronteiras entre os campos.
No documentário citado acima, Sebastião Oliveira, escritor e acadêmico, recorre ao tempo como “senhor da razão”. Atualizando em sua fala a antiga premissa da cultura ocidental de que a literatura — como toda “arte verdadeira” — pertence a um tempo extenso, ele afirma que a escrita daqueles jovens não pode ser considerada literária. Se pertencem “à história da literatura”, é porque se envolveram em debates sobre literatura e porque, de mais a mais, publicaram livros etiquetados como literatura. No entanto, no que se refere ao valor estético, segundo o raciocínio do acadêmico, são textos de pouca ‘monta”, de impacto efêmero: seriam apenas — jornalismo.
Fato é que ele o afirma quase meio século depois.
5 Considerações finais
Pretendi com esse ensaio que é um esboço abordar um problema — ou seja, me aproximar dele pelas bordas, pelas beiradas. Partindo de certos preconceitos sobre literatura e jornalismo, persegui um ponto: a escrita jornalística e a escrita literária são distintas ou, mais especificamente, elas são distintas por pertencerem a regimes distintos de temporalidade?
A resposta, como sói, é precária. É possível redigir e argumentar em defesa de definições fechadas de literatura e jornalismo, basicamente, assumindo que o jornalismo lida objetivamente com fatos presentes e a literatura lida subjetivamente com a signos atemporais. Mas qualquer visada critica põe tal diferenciação por terra, uma vez que nem a literatura está livre de atender as demandas do presente nem de operar com fatos, assim como o jornalismo não pode expurgar de si a subjetividade, a imaginação ou a longevidade.
Nascidos como gêmeos de temperamentos distintos, decorrentes da revolução cultural representada pela invenção da imprensa e no esteio de transformações sociais como a universalização da alfabetização a partir da Reforma Protestante e da Revolução Industrial, jornalismo e literatura invadem-se mutuamente desde seus começos e, no decurso de suas crises — como é o caso dos anos 1960 — experimentos mestiços de jornalismo e literatura ganharam força e tiveram ressonância cultural.
Essas promiscuidades de juventude e contaminações em períodos de crise indicam — mas isso é matéria para um outro texto — que o que existe nesse ponto intersticial, intervalar, é a potência de um tempo que nem é o presente descartável da notícia nem a eternidade sagrada do clássico. Há tanto no jornalismo quanto na literatura e muito especialmente na escrita delinquente e nômade que transita por suas fronteiras a potência do tempo Aion: o tempo do acontecimento, um tempo-faca que rasga a extensão curta ou longa (presente x eternidade) no jorro vermelho e quente do tempo intenso da atualidade. O tempo da atualidade não é o presente, não é o agora, nem é o perene — é o tempo que pode irromper a qualquer momento como algo outro sem se reduzir à ideia de novidade: é o tempo da diferença… e do eterno retorno da diferença.
Caxias, 31 de agosto de 2025.





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