Seguindo a grade de publicações dedicadas ao tema jornalismo & literatura, a Gato Preto traz esta transcrição de Vítor Gonçalves Neto: O Cronista Maldito, entrevista com o escritor e jornalista Vitor Gonçalves Neto.

Caricatura de Vítor Gonçalves Neto, com a frase: 'Já tive 318 profissões em minha vida, incluindo quatro honestas.'

Nota editorial

Vítor Gonçalves Neto foi um escritor/jornalista nascido em Teresina em 4 de novembro de 1925. Exímio cronista, poderia facilmente figurar em qualquer lista dos maiores escritores modernos (ou modernistas) brasileiros. Se permanece obscuro é em decorrência de uma decisão ética: escolheu viver e morrer sempre no interior, pois preferia o jeito de viver e — como ele afirma nesta entrevista — de fazer jornal na província. A entrevista que ora transcrevemos, publicada pela Edições Corisco em parceira com a Academia Piauiense de Letras em 1988 é um belo e importante documento tanto para a história do jornalismo quanto da literatura do Maranhão, do Piauí e do Brasil no século XX: retrato de um homem e de sua própria mitologia, bem como de uma geração e do arquétipo de escritor-jornalista que tal geração cultivou

Nota do transcritor

A entrevista que segue foi conduzida em Teresina, em 1988, por Paulo Machado, Kenard Kruel, Cineas Santos (que a editou e assinou o texto de apresentação) e uma jovem misteriosa sobre quem, até o momento, tudo que sabemos é o nome: Norma.

A publicação da brochura de 36 páginas foi uma coedição da Livraria e Editora Edições Corisco e da Academia Piauiense de Letras (Projeto Petrônio Portela).

No alto da folha de rosto consta: “Coleção ‘Meninos Eu Vi”, e logo abaixo, centralizado e em letras fortes: VOLUME 4. Na ficha catalográfica, entretanto, consta “Coleção ‘Meninos, eu vi’, vol. 03”. O tipo de incerteza que faz jus ao entrevistado.

O subtítulo, O cronista maldito, da edição original, foi tomado de uma crônica homônima de José Chagas, datada de 1974. Os editores anexaram a crônica no final do livro e ela segue aqui transcrita também.

O soneto que Vítor escreveu em 1945, aos 19 anos, sobre a bronha do padre de Fortaleza (nem Rimbaud ousara tanto) que consta na última página do livro não foi transcrito: vai um fac-símile.

Tive por base um exemplar em condições mais ou menos apresentáveis que, há mais de vinte anos e sem avisar, lalei emprestado (junto com o Volume 1 da obra completa de H. Dobal) da biblioteca da tia Ana Lúcia e jamais me esqueci de não devolver.

Algum segmento de texto que não conste no original (intervenção deste transcritor) será grafado em vermelho. A ortografia foi atualizada. A formatação foi evidentemente alterada e um ou outro ponto ou vírgula posso ter acrescido ou tesourado.

Fora essas ou outras infidelidades que tais, a transcrição é sacramentalmente fidedigna.

Isaac Gonçalves Souza


Vítor Gonçalves Neto: O Cronista Maldito

Transcrição de entrevista com Vitor Gonçalves Neto em 1988.

Editor: Cineas Santos

Revisão da publicação original: Marcos Mamede

Transcrição e revisão para a Gato Preto Cultural (2025): Isaac Gonçalves Souza


APENAS VÍTOR

Aí por volta da década de 40, um grupo de intelectuais (leia-se estudantes) teresinenses costumava reunir-se na Praça Pedro Il para consertar o mundo, e eventualmente, tomar cafezinho. O eventualmente corre por conta da “dureza” dos rapazes. Apenas um deles, precisamente o menos brilhante (o tempo encarregar-se-ia de provar isso), tinha algum dinheiro, razão por que foi escolhido “pagador oficial”. Ao se dar conta de que estava sendo “explorado” pelos companheiros, armou-se de uma estratégia para vingar-se. Convidado para o cafezinho, recusou o convite, com o argumento: “Vocês não querem a minha companhia; querem apenas o meu dinheiro. Peguem!” e estendeu ao grupo uma cédula de vinte mil réis, quantia suficiente para pagar 40 cafezinhos. O gesto inusitado provocou um tremendo mal-estar em todos, menos num baixinho irreverente que, adiantando-se, pegou a grana, embolsou-a, não se esquecendo de perguntar: “Você quer troco ou a gente pode torrar todo?”.

O autor dessa proeza é Vítor Gonçalves Neto, um franco-atirador, que se orgulha de ter herdado do avô o nome pomposo, o gosto pela cachaça, três cruzes de sífilis e um velho dicionário sem a letra A.

Aos dez anos de idade, Vítor já estava na redação do jornal O Tempo escrevendo sobre o tema de que mais gosta: ele mesmo. Ao longo da vida, fundou e afundou jornais por esse Brasil afora, esbanjou talento, construiu inimizades efêmeras e amizades duradouras. Pragmático, fez-se amigo de figuras que variam de Graciliano Ramos a Sarney, aquele que o Millôr Fernandes, com meia dúzia de artigos no JB, desimortalizou.

Muito antes da Globo, Vítor já fazia armações ilimitadas. Certa vez, travestiu-se de arquiteto e foi a Pacoti (CE) elaborar um projeto para o vigário da cidade, padre Gerardo. Hospedou-se no melhor hotel do lugar (que não devia ser aí grande coisa), namorou a filha do dono do hotel (idem), comeu pouco, bebeu muito, tudo isso por conta do pároco Em lugar do projeto de igreja encomendado, redigiu uma dúzia de sonetos fesceninos (veja p. 34) contra O reverendo e escafedeu-se.

Cidadão do mundo, depois de percorrer “Oropa, França e Bahia”, acabou aportando em Caxias, que por sinal não tem porto, onde dirige o jornal “mais ou menos semanal”, “O Pioneiro”.

Aos 62 anos de idade, Vítor ainda não sabe o que vai ser quando crescer. Pelo jeito, vai ser Vítor Gonçalves Neto. Ele não tem vocação para outra coisa.

Cineas: Vítor, o que significa o jornalismo para você?

Vitor: Acho que fazer jornal do tipo que eu faço é simplesmente um ato de amor. Faço jornal mais ou menos como se faz um filho: cada número é um produto meu — cada exemplar saído uma alegria — cada edição uma vitória. Pra mim, fazer jornal foi sempre mesmo um ato de amor. Não como se faz hoje, mas como se pode fazer ainda hoje. Apanhando letra por letra. Juntando tipo por tipo. Jornal do tempo dos meus contemporâneos. Todo feito na mão… como punheta.

Cineas: Há poucos dias, conversando com nosso amigo comum, o Paulo Nunes, ele me dizia que não há nada mais degradante para um intelectual do que fazer jornalismo na província. Você concorda com isso?

Vítor: O Paulo Nunes (a despeito do respeito e da admiração que tenho por ele) foi sempre um homem metropolitano. Um homem que devia ter nascido em Londres… pelo menos e que nunca deveria ter conhecido uma província. Então acho essa declaração dele válida neste aspecto, mas no mais ele está completamente errado.

Paulo Machado: Você insiste em fazer jornalismo a seu modo, não se afastando da província. Certamente você tem sido pressionado por grupos empresariais que tentam fazer da imprensa apenas o instrumento de divulgação de suas ideias e interesses. Isso já ocorre em Caxias, por exemplo?

Vítor: Ocorre e mesmo que não ocorresse em relação a grupos locais os de fora vão lá ou em outra qualquer parte caçar a gente. Já recebi visitas. Convites. Propostas esdrúxulas que sempre recusei. Não que eu tenha o rabo grudado no interior… mas se aceitasse eles não me arrancariam somente de lá. Me levariam do meu mundo para um mundo diferente que bem conheço e isto eu não desejo. Nem admito.

Paulo Machado: Dando continuidade à pergunta: as escolas de Jornalismo estão aí, e a cada término de período, lançam no mercado um grupo de recém-formados. O que está acontecendo com essa gente, já que as grandes empresas de comunicação insistem em querer cooptar pessoas como você?

Vítor: Eu, por exemplo, sou um jornalista que não tem nem carteira… não sou formado nem me formaria nunca. Acho que esta questão, aliás, diz respeito não apenas aos profissionais de comunicação, mas também aos médicos e dentistas. Engenheiros, advogados. Que muitas das vezes saem das faculdades e ficam pelaí passando fome. Vou citar apenas um exemplo: certa feita eu estava em São Paulo com um amigo (se bem me lembro o teatrólogo Ubiratan Teixeira, lá de São Luís) quando a gente observou um moço que estava ali sentado, mas de vez em quando se levantava e raspava alguma coisa nos assentos. Sabe qual a profissão do camarada? Era “arrancador de chicletes” dos bancos do Terminal Rodoviário, que eram grudados pelos meninos. Depois soubemos que o cujo era recém-formado em Direito… quem sabe nas horas vagas não daria expediente treinando no escritório de um rábula famoso?!

Cineas: O Millôr Fernandes ingressou no jornalismo aos dez anos de idade e faz questão de dizer que recebeu pagamento pelo primeiro trabalho publicado, isto é, o Millôr sempre se preocupou em ser um profissional. Você também ingressou no jornalismo aos dez anos e nunca se preocupou com registro profissional, sindicato etc. A que se deve isso?

Vítor: Em primeiro lugar não me fiz jornalista por questão de salário, nem mesmo por vaidade. Eu conto. Ia passando casualmente em frente à redação do jornal O Tempo (aqui mesmo em Teresina) no dia 4 de novembro de 1935 e justamente nesse dia estava “inteirando” 10 anos de idade. Foi tudo muito rápido. Entrei e fui perguntando a um cidadão que estava ali sozinho se não queria um empregado. Respondeu-me que pra varrer já tinha um todos os sábados… al eu disse: “Não eu quero é escrever no jornal!”. Ele falou: “Menino, você sabe escrever seu nome?”. Fui me zangando, mas disse de manso: “Já vou fazer o Ginásio”. Aí ele bufou: “Pois te senta al e escreve uma nota qualquer…” Vai que aproveitei a deixa e lasquei na apara de papel de embrulho: “Aniversaria hoje o…” e pan-pan-pan. Antes já encabeçara a notícia com um título mais ou menos pomposo e esperei. À tarde lá estava na primeira página do vespertino a primeira nota escrita por mim. Voltei à redação e o mesmo moço me deu os parabéns pelo aniversário e rosnou: “Está empregado!”. Ele era o diretor. Paraense. Chamava-se Djard Mendonça de Carvalho (que deus ou o diabo o tenhal). Nunca me pagou um tostão, mas em compensação me ensinou em pouco tempo cerca de tudo o que é artimanha de jornal… devo-lhe isto eternamente.

Cineas: Além do jornal O Tempo, em que outros jornais você trabalhou em Teresina?

Vitor: Foram vários. Inclusive fundei alguns como A Notícia com o Waldemar Sandes e Orlando Rollo principalmente. Trabalhei no jornal comunista O Libertador do velho Semana e participei da primeira fase de O Pirralho. Tive uma vida intensa aqui em Teresina militando em diversos jornais. Fundei revistas. Depois eu me mandei… e fui fundar e “afundar” outros jornais aí pelo mundo, como você próprio já mundo alhures.

Cineas: Aos dez anos você já estava no ginásio, o que não era pouco, considerando a realidade da época. Pouco depois, ao que se sabe, você estava fora da escola. O que o levou a abandonar o colégio?

Vítor: Olha, nunca me considerei “gênio”… nem mesmo “menino-prodígio”. Mas aos 4 anos de idade aprendi a ler (mais ou menos sozinho) no livreto “Jeca Tatu” de Monteiro Lobato, de quem no futuro me tornaria amigo. Aos 7, falava francês. Logo depois dominava o espanhol e o inglês. Mais tarde virei o que sou ainda hoje… um ex-poliglota completamente analfabeto. Partindo daí, cheguei à conclusão de que sabia mais do que meus professores… modéstia à parte. Mas foi no Ceará. Matriculei-me num colégio em Fortaleza e logo na primeira aula um professor começou a falar besteira. Mandei tudo à merda e nunca mais fui à escola.

Cineas: Que série você já estava cursando?

Vítor Já estava no Científico. E então resolvi me formar em nada.

Cineas: Ao deixar Teresina, você continuou a trabalhar em jornais?

Vitor: Nem sempre. Primeiro, fui para o Maranhão e lá estudei no Colégio São Luís do prof. Luiz Rego. Restaurado de uma paixão antiga, rumei para mais longe. Fui indo. Fui indo até alcançar as “Oropa, França e Bahia”.

Cineas: Sim, mas o que eu gostaria de saber é se você continuou a trabalhar como jornalista.

Vitor: Cineas, eu já tive 318 profissões em minha vida… incluindo 4 honestas. Por exemplo: fui guia de cego em Penedo (Alagoas) e fui cego mesmo… em Própria (Sergipe). Fui também subchefe da Casa Civil de 3 governadores do Maranhão inclusive do hoje nosso Presidente da República José Sarney. Aliás no Governo deste só permaneci no cargo por 3 dias… tempo suficiente para ser demitido. No Governo Newton Bello (apesar da relativa importância do cargo) era proibido de entrar em Palácio… e conforme denúncia do poeta e cronista José Chagas só recebi 3 meses e meio de ordenado. Quem me nomeou foi o governador Aldenir Silva em seu único ato palmável… Na verdade tive muitos cargos importantes como por exemplo o de assistente técnico de Biblioteconomia da Biblioteca Pública do Maranhão. O de consultor poético da Prefeitura de Benedito Leite…

Cineas: Consultor Poético?!!!

Vítor: É. Foi numa noite de farra em Uruçuí, aqui no fim do Piauí. Estavam o Wilson do Egito Coelho e outros e mandaram buscar o prefeito da cidade maranhense fronteira numa canoa. Tudo legalizado, parti dali mesmo para Canoas no Rio Grande do Sul, onde fui professor de Latim. Depois já em Minas Gerais abracei a profissão de gigolô no Estado todo. Mais tarde passei a vender drogas (remédios duvidosamente científicos) e livros (principalmente pornográficos) nas fronteiras.

Cineas: Nessas suas andanças, pelo menos nas primeiras, você acompanhava sua família ou já andava sozinho?

Vítor: Sempre sozinho: “antes só do que mal acompanhado”… como me dizia minha avó materna.

Cineas: Você me falou, certa vez, de uma herança que recebeu de um avô. Que herança foi essa?

Vitor: Foi do meu avô paterno. Uma espécie de filósofo perdido num lugarejozinho com o nome poético de Flor do Tempo e que dava aos filhos uns nomes bíblicos a exemplo de meu pai, que se chamava Melchisedech. Dele herdei o nome e um velho dicionário de Simões de Fonseca. Algumas dívidas e 3 cruzes de sífilis da boa… além desse gosto danado pela cachaça. Falar nisso: aqui não sai nem cerveja?

Cineas: Vai sair já.

Kenard Kruel: Vítor, eu sou o Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Piauí e, no momento, estamos brigando pelo piso salarial. Há, porém, uma dificuldade que é a presença de pessoas, principalmente mais idosas, como A. Tito Filho, José Eduardo Pereira e outros tantos, que escrevem de graça para os jornais. O prof. A. Tito Filho, por exemplo, diz que é do tempo em que se fazia jornalismo por amor ao debate, à polêmica etc. Como você vê a atuação dessas pessoas que ocupam o lugar de profissionais nas redações sem cobrar nada pelo que escrevem?

Vítor

Eu também sou mais ou menos da mesma geração do A. Tito Filho e do José Eduardo Pereira que geralmente trabalham ou trabalhavam de graça, vamos dizer. Lembro que quando aportei no Rio de Janeiro, o Odylo Costa, filho me convidou para escrever no Suplemento Literário do Diário de Notícias que então era talvez o mais importante do Brasil. Lá colaboravam além de Rachel de Queiroz, o mestre Tristão de Atahyde e outros cobras. O Odylo sugeriu que eu fizesse algumas crônicas sobre o folclore piauiense e quando saiu a primeira (sobre o “Boi”) naturalmente que fiquei eufórico. Colocaram minha crônica acima da do Tristão… na paginação. Não tinha dinheiro para comprar ao menos um exemplar, mas o Osório Borba (outra paidégua da época) quebrou o galho e me deu logo não sei quantos. Foi aí que o Odylo me falou: “Passe lá no caixa pra receber seu cachê”. Estranhei e disse: “E eu quero lá dinheiro?!”… Então o Odylo retrucou: “Não. Aqui no Rio de Janeiro, a gente não escreve nem o nome de graça.” E finalmente com sua paciência infinita me explicou ainda que o jornal não estava me pagando o valor real do meu trabalho que tanto poderia ser inestimável como não valer absolutamente nada… estava me pagando o tempo que eu perdi, ou melhor, que eu gastei para escrever o trabalho. Tempo que eu poderia utilizar para fazer outra coisa. Bem… pelo menos ele se livrou de algumas “facadas” minhas por algum tempo.

Por isso, sou de acordo que o profissional de imprensa deve receber pelo que escreve, ou melhor, pelo tempo gasto para elaborar sua matéria. Tempo que poderia ser utilizado para fabricar um caixão de defunto por exemplo. Ou no qual estivesse namorando com uma viúva rica… né?

Kenard Kruel: Durante muito tempo, pelo menos no Piauí, as pessoas faziam jornalismo por diletantismo, por vaidade. Geralmente, eram pessoas de outras áreas, normalmente bacharéis em Direito, que escreviam pelo gosto da polêmica, pela chamada agitação cultural. Hoje, mudou-se de mentalidade: as pessoas que escrevem são profissionais ou, pelo menos, se consideram profissionais. Todavia a qualidade do jornalismo piorou, caiu muito. Em sua opinião, a que se deve isso?

Vitor: Olha, eu não quero ofender ninguém e muito menos aos meus colegas. Mas veja bem: hoje em Teresina, por exemplo, já existem não sei quantas estações de rádio. Tem TV e uma porrada de jornais. Revistas também. E é bem possível que nenhuma dessas empresas de comunicação pague um salário digno… todo mundo geralmente paga muito pouco. Então o que acontece é o seguinte: elas pegam uns semianalfabetos, rapazes inexperientes e algumas mocinhas fogosas e aí haja bobagem. Quem entende de alguma coisa não se sente motivado a produzir porque o salário que recebe é talvez insignificante. Melhor fazer como eu e alguns outros diretores de jornais do interior… como não posso pagar eu mesmo escrevo e reviso. Varro a redação e vendo algum número do jornal para um ou outro leitor incauto.

Norma: Vítor, em relação ao nível de vida, há muita diferença entre os que faziam imprensa em sua época e os profissionais do jornalismo hoje?

Vítor: Na verdade, no meu tempo a gente escrevia porque gostava e então nos contentávamos com pouco… muitas das vezes estúpida, mas conscientemente, até com algumas dúzias de cerveja. O nível de vida, todavia, era (vamos dizer) baixo. Hoje não. Se você tem família a sustentar necessita de ganhar bem (se desbundar…) para pelo menos sobreviver.

Paulo Machado: Vítor, é sabido que, tanto na sua época, como hoje, há profissionais de imprensa que estão a serviço de grupos políticos. Na sua época era mais palpável a existência de jornais pertencentes a grupos partidários. Esses jornalistas são, quase sempre, os que logram êxito material. Qual a contribuição deles na evolução da própria imprensa?

Vítor: Talvez até nenhuma. Hoje está ocorrendo um fato interessante (ou revoltante) em todo o interior. Geralmente nas pequenas cidades você faz jornalismo não em função de grupos políticos ou mesmo famílias, mas em torno de pessoas. Você faz um jornal e tem que ter cuidado para não falar de determinadas personagens, senão está liquidado. Às vezes até parentes do dono da Folha fazem parte da lista negra… e amanhã já estão de bem… é uma merda. Acho que hoje está muito pior que antigamente.

Norma: Você acha que está havendo uma monopolização da coisa também em Caxias?

Vítor: Creio, Norminha, que é no mundo todo

Paulo Machado: Você tem acompanhado a imprensa escrita feita no Piauí? Aqui a coisa não lhe parece muito mais acentuada?

Vítor: Acho sim. Mas é bom lembrar que há muita “picaretagem” inclusive na imprensa local e uma das causas principais da decadência da imprensa é justamente essa safadeza. Outrora não havia isso não. Era mais digno. Agora faz dó. Pena. Causa revolta. A gente pega num jornal e na primeira página tem uma matéria esculhambando o sujeito… e no dia seguinte na mesma página já estão elogiando o mesmo cara. Então a gente sabe que o que está havendo ali é o dinheiro.

Kenard Kruel: Vítor, a situação nesse particular, é a seguinte: além das páginas publicitárias, dos editais, das matérias pagas, o governo manda os “releases” para os jornais e ainda tem as chamadas “quotas fixas”, verbas destinadas às empresas jornalísticas. Como se tudo isso não bastasse, cada profissional de imprensa tem uma assessoria num órgão do governo. Então, o que temos é um jornalismo oficial, de governo para governo. Agora, uma pergunta: você, durante sua vida de jornalista, sofreu alguma perseguição política?

Vitor: Em relação à primeira questão exposta por você, a situação é esta: as grandes verbas são destinadas às chamadas “grandes empresas de comunicação”. Aos grandes jornais e revistas. Os pequenos jornais do interior (que aliás são uma grande força pelo seu número) não veem nada. Eu, por exemplo, pertenço à ABRAJORI (Associação Brasileiro dos Jornais do Interior) e a quota que o Governo Federal nos destina (e não é respeitada) é de apenas 20% do montante destinado à imprensa. Ou seja: não sobra pirocas. Quem recebe tudo é a TV Globo. Certamente, também a Veja e os grandes jornais das capitais. Não escapa nem a Lei das S/A pois as empresas interioranas teimam em não publicar seus balanços e quanto à pergunta que se segue, fui preso diversas vezes graças a deus … no mínimo, é um período em que não se tem despesas. Comida e dormida grátis (às vezes até mulher). Também sofri muitas pressões. Houve um caso comigo em Floriano que vale recordar… o irmão do Alberoni (Andocides Lemos) tinha um jornal quando apareci por lá, procedente de São João dos Patos de Dona Noca. Vai que ele me pediu um artigo, o que me valeu ser considerado indesejável pela cidade inteira.

Cineas: De que tratava esse artigo?

Vítor: Era só pra esculhambar todo mundo e aí meti o pau. Depois, o Tibério Nunes (mas tarde governador do Estado e meu amigo), que era o prefeito na época, chegou pra mim num bar (parece que dum bom senhor Bento Leão) e me perguntou: “É você que é o Vítor?”. Eu disse: “às vezes”. Ele retrucou: “Foi você que escreveu essa porcaria?”. Novamente falei enquanto bebericava uma cerveja: “Eu acho”. Al o homem se aporrinhou e gritou: “Pois você sabe que agora vai engolir este jornal?”. O dono do bar saltou o balcão e ficou ao meu lado enquanto calmamente eu retorquia: “Dizem que o senhor é médico, pelo que deve saber, a intoxicação que vou ter com essa tinta toda”… E fui ganhando tempo até escapulir para uma casa vizinha, onde uma senhora grávida desprevenida me protegeu também. O Andocides teve menos sorte, pois ao que soube foi apanhado no mictório onde naturalmente levou alguns trancos e ao chegar a casa após registrar queixa na polícia… encontrou as oficinas do seu jornal (Gazeta do Sul) mais ou menos arrebentadas…

Cineas: Por falar nisso, aqui em Teresina, no seu tempo, havia muito quebra-quebra de jornais?

Vítor: Nem tanto, Cineas. Parece que após aquele de O Denunciante do famoso Dondon, quando jogaram todo o material tipográfico no rio Parnaíba só se registrou muitos anos depois o de O Piauí. Ο primeiro que se deu foi pouco depois de meu nascimento e neste último nasci de novo. É que eu dormia em cima de uma mesa em sua redação, mas naquela noite me embriaguei pela zona e só aguentei chegar até na praça Rio Branco onde dormi debaixo de um banco. Mataram o vigia e esbagaçaram o meu leito.

Cineas: De quem foi mesmo a autoria deste último atentado?

Vítor: Não me comprometa… deixa pra lá!

Cineas: No início desta conversa, você diz ter trabalhado no jornal O Libertador, de tendência comunista. Seus companheiros de geração (a grande maioria) pertenciam ao PCB, ou, pelo menos, tinham alguma simpatia pelas ideias marxista-leninistas. E você? Era comunista, “livre pensador” ou anarquista?

Vítor: Eu talvez fosse mais anarquista. Mas no meu tempo ser comunista era uma beleza. Hoje perdeu a graça e até parece que acabou o próprio idealismo. Ah! A gente se reunia em cemitério e nas coroas então desertas dos rios… ou então para variar (ou despistar) íamos para os fundos de um hotelzinho que ficava situado em frente à delegacia de polícia no lado oposto da praça Saraiva.

Paulo Machado: Vítor, você poderia fazer uma abordagem sobre o panorama sociocultural de Teresina à época em que você viveu aqui?

Vítor: Hoje estou muito afastado do Piauí, apesar de ter residência já tão perto. Em minha época havia muita gente boa, como creio exista também agora. Sou da safra do M. Paulo Nunes Texeira, Hindemburgo Dobal, Alonso Ligorio de Carvalho José Camilo Filho, Petrônio Portella Nunes, Maria Guadalupe Lopes de Lima, Francelino Pereira dos Santos, Omar dos Santos Rocha, João Nonon Fontes Ibiapina, O. G. Rego de Carvalho e tantos outros desse naipe. Aqui nós tínhamos uma vida literária e jornalística muito intensa. Alguns mais velhos ou mais novos do que eu. Mortos uma boa parte (ou grande parte). Misturando tudo, recordo minha vivência com Fabrício de Area Leão, Hermes Vieira (e Pinheiro), Bento Clarindo Bastos, José Lopes dos Santos, Sebastião Ferreira da Silva, Rodrigues dos Santos, Zeca Belarmino, Raimundo Ramos, Leão Sombra do Norte Fontes, Josias Clarence Carneiro da Silva, Wiliam Palha Dias, Luiz do Amaral Sobreira, Álvaro Ferreira, José Ribamar Pacheco, Semaninha, Murilo Couto, Camal Cury, Milbert Macau, José Caldas Brito, Valentim Henrique de Souza, George e Maria Eliza Pires Haves, Areolino Costa, Josípio Lustosa, Leão Monteiro, Jevan Barbosa, Chico Bento, Bernardino Viana, João (e Jessé) Ferry, Raimundo Santana, J. Miguel de Matos Odete Vieira da Rocha, Manoel Teodoro, Paulo Cunha, Monsenhor Chaves, Cunha e Silva e tantos e tantos outros intelectuais e jornalistas. Ou pelo menos cachaceiros… Наvia o “Clube dos Novos” e diversas revistas: Voz do Estudante. Meridiano. Geração. O jornalzinho Autêntico. Depois, veio ο “Clube Telúrico” só de gente renomada. Encontrávamo-nos geralmente ao meio-dia no Dragão, que era um bar dos mais centrais e nossos patronos eram Lampião e o padre Cícero e não sei quem mais. Lá estavam sempre, dentre outros: Clidenor de Freitas Santos, Ulisses Marques, João Mendes, José Olympio de Melo, Reginaldo Balbo Alvim, José Eduardo Pereira, Ofélio Leitão, Cícero Ferraz, Carlos Eugênio Porto… até eu. Hoje nem sei como andam mesmo as coisas aqui, mas nós fizemos um movimento literário muito bom. Agora estou mais ligado ao Maranhão.

Paulo Machado: Sua geração sucedeu àquela da antiga Faculdade de Direito do Piauí, onde pontificaram nomes importantes. Qual a sua opinião sobre a literatura e o trabalho feito por aquela geração?

Vítor: Um trabalho muito bom, Paulo Machado. Acho que aprendemos muito com ela. Assim como a que nos sucedeu deve de ter aprendido também algo conosco. Ah! queria lembrar uma coisa: o Paulo Nunes fez um livro lembrando nossa “geração perdida”… É verdade. O livro é oferecido a Petrônio Portella que foi ministro da Justiça e se não chegou a presidente da República foi porque a morte não deixou. Outro dos outros a quem oferece seu livro sou eu… creio que da nossa geração talvez o único que se “salvou”…

Paulo Machado: Você é um ficcionista, um contista. Qual a sua opinião sobre o romance Um Manicaca, de Abdias Neves?

Vítor: Um bom livro. Um grande romance que aliás nunca li. Contentei-me com o título. Mas sou mesmo assim. A placa de um ônibus já me diz o seu roteiro. Um par de coxas meio aberto sempre, ou quase, me leva ao seu fim. Mas saiba de uma vez por todas que não sou contista. Gosto mesmo é de cronicar. Em verdade, só cometi mesmo um conto (Fogo) em toda a minha vida pregressa, que nem era conto mesmo… mas conto: era uma novela tendo como tema os incêndios de Teresina. Seria, aliás, uma novela com o título de “Santa Luzia dos Cajueiros”. Então, quando cheguei na Bahia, recebi convite para escrever uma “estória” e me deram uma noite só para isso. Era para figurar na antologia Contos Regionais Brasileiros, organizada por Pinto de Aguiar. Pois eu, que nem sei o que diacho é conto, só achei uma saída: reduzir em um só os 25 capítulos da dita novela… e foi justamente o que fiz. Por sinal, estive lendo hoje (após uma cacetada de anos) o conto (que o Cineas está reeditando mais uma vez depois de muitas) e tenho a impressão de que se fosse escrever aquela coisa agora, não conseguiria.

Cineas: Bem, você tocou aí num assunto ainda não esclarecido. Sua geração testemunhou o incidente da destruição das casas de palha de Teresina, os incêndios criminosos que martirizavam a gente pobre daqui. Em sua opinião, quem eram os responsáveis pelos incêndios?

Vitor: Cineas, é o que eu digo. Aliás o que a Maroca (ou outra personagem popular) grita em meu conto: “Perfeito ladrão! Intreventő miseráve!!”… porque se não eram eles, pelo menos eles eram os responsáveis. Afinal de contas, as autoridades são sempre culpadas de tudo… principalmente do que não presta. Ou seja: daquilo que se viu aqui. Foi crime sim!

Paulo Machado: É sabido, pelo menos a imprensa registrou isso, que havia uma transferência de responsabilidade por parte do governo, porque pessoas eram identificadas como incendiárias, presas, torturadas e até processadas. O que as autoridades pretendiam com isso?

Vitor: Nunca se chegou a uma conclusão a respeito, ao que parece. Uns afirmam que era para acabar com as palhoças de Teresina. Pra mudar a “imagem da cidade” que era muito feia, o que nunca ficou provado. Mas o certo é que havia perseguições políticas no meio disso tudo, como é o caso do dr. José Cândido Ferraz que foi preso e acho que até torturado mesmo. O governo pegou o Zé Cândido (Douto Zé Câindo, para o povo) e fez dele o que quis… depois o povo fez dele seu deputado federal. Capaz de ser um troço político mesmo.

Cineas: Há uma coisa curiosa: tanto você, no conto Fogo, como Fontes Ibiapina, em Palha de Arroz, colocam sempre as denúncias na boca de um personagem do povo, um louco, por exemplo. Quer dizer, vocês transferem para um personagem irresponsável aquilo que vocês deveriam denunciar. Era medo de perderem os culhões?

Vítor: Nem tanto… pois de qualquer maneira somos os únicos responsáveis pelo texto completo do que escrevemos e até mesmo do que transcrevemos. Pois bem: o conto Fogo deveria ser filmado, mas foi proibido.

Cineas: Quando?

Vítor: Logo depois de sua publicação.

Cineas: De onde partiu a proibição?

Vítor: Certamente das autoridades. O certo é que uma companhia do Rio de Janeiro ia filmar o tema e acabou sendo pressionada e desistiu.

Paulo Machado: Há informações de que em outras capitais brasileiras e também em outras cidades, à época da ditadura Vargas, aconteceram coisas parecidas. Não haveria uma ligação entre esses fatos como um todo?

Vítor: Talvez haja, mas eu me apeguei mais ao problema local. Você lembrou bem pode ter havido uma relação entre esses fatos criminosos e a política nacional como um todo. Só que naquela época não me dei conta disso.

Cineas: Você chegou a testemunhar algum incêndio?

Vítor: Vi muitos. Eu era estudante do Liceu naquele tempo e a melhor coisa pra nós era quando acontecia um incêndio… aí a gente arribava da sala de aula e corria para apagar o fogo pelaí, aproveitando para beliscar bundas de negas e outras coisas que tais. Inclusive lembro um fato que não registrei em meu conto, mas serviria para abrir o roteiro do filme que não foi feito. Antes da sirene do carro dos bombeiros furar o tempo, uma velha teve sua palhoça completamente consumida pelas chamas num subúrbio distante perdendo tudo. Milagre ou não, só lhe sobrou o diacho de um santo… e ela ficou a olhá-lo sentada fungando à beira de um poço. São Sebastião, ou outro qualquer dentro do seu quadro, só não esperava talvez o ataque de loucura que a velha teve… Com um nome feio ela o arremessou lá no fundo e se ele não se acabou queimado não escapou do afogamento.

Paulo Machado: Embora você tenha afirmado que é mais cronista que contista, houve uma promessa de sua parte de escrever uma novela ou um romance tendo como tema a prostituição, mais especificamente, a Paissandu. Esse trabalho chegou a ser iniciado ou ficou apenas em projeto?

Vítor: Só ficou apenas em projeto. Até mesmo porque o Nonon (Fontes Ibiapina) publicou um romance sobre o mesmo tema… Mas acho que nem foi por isso — é que sempre fui muito relaxado mesmo. Além desse projeto do livro “Paissandu Nº 9”, pensei seriamente em escrever um romance com o rio Parnaíba: ‘Caminho das Águas Turvas”. Foi o mestre Martins Napoleão que, após ler Fogo, me escreveu sugerindo isso, inclusive afirmando que eu seria o único escritor piauiense capaz da façanha. Mas só ficou no título. Nem sei como cheguei a publicar o volume de crônicas Conversa Tão Somente. O Arimatéia (A. Tito Filho) tem pelejado muito para reeditar meu Roteiro Das 7 Cidades pela Academia Piauiense de Letras e eu sempre relutando. Eu sou bom é de títulos mesmo, inclusive protestados. Só não tolero os de cidadania.

Paulo Machado: Deixa isso pra lá. Ao que se sabe, você era profundo conhecedor do ambiente da Paissandu e teria elementos suficientes para escrever uma boa novela sobre o tema. Foi a publicação do livro do Fontes que te fez desistir da ideia?

Vitor: Rapaz, não foi nada disso, até porque sempre me dei muito bem com o Ibiapina enquanto ele viveu… Simplesmente não levei a ideia avante.

Paulo Machado: A Paissandu foi totalmente destruída, ou melhor, transformada pela ação de grupos empresariais. O que você vê de positivo ou de negativo nisso?

Vitor: O problema é que a zona do meretrício hoje não está mais localizada num único lugar como antigamente. A prostituição espalhou-se pela cidade toda em toda parte. Não há mais uma zona especial destinada às prostitutas e enquanto elas “furam” a fronteira familiar as famílias invadem o puteiro.

Paulo Machado: Há um fato que eu gostaria que você analisasse: a área onde estava localizada a zona da Paissandu, não é preciso ser muito inteligente para perceber que é valiosíssima: fica próxima à zona portuária, próxima também da principal avenida da cidade. As pessoas que ocupavam aquela região tinham recebido título de aforamento há muito tempo e, naturalmente, precisavam ser retiradas. Não estaria acontecendo hoje, em relação à Paissandu, o que aconteceu no período dos incêndios das casas de palha em Teresina quando os mais humildes eram desalojados e, consequentemente, escorraçados de seus imóveis? Não haveria uma certa ligação entre esses dois fatos?

Vítor: É a segunda coisa que você me diz e para as quais eu não havia atentado. É possível que isso tenha realmente acontecido naquela época dos incêndios e que esteja ocorrendo agora na Paissandu.

Cineas: Vítor, você chegou a militar em algum partido político?

Vítor: Houve um fato muito interessante: eu estava sentado no antigo Bar Carnaúba, na praça Dom Pedro II, quando passou o Demerval Lobão em plena campanha para o Governo do Estado e quando me viu falou: “Vítor, vamos ali?”. Nem perguntei para onde… e quando me dei conta já estava desapeando em Barras do Maratahoan… cidade nobre em que se realizaria um comício em prol de sua candidatura, creio que pela extinta UDN. Descemos do carro e eu e o Chico Bento fomos aguardar a hora tomando banho no rio, bebericando algumas cachaças. Era um foguetório filho da puta e quando nos decidimos a voltar topamos com um comício monstro na praça entupida de gente. Então eu disse: “É aqui”! E alguém falou: “Sobe”! Só que o comício ali era justamente do Partido contrário… Al me deram a palavra e o jeito foi eu escuIhambar meu amigo Demerval Lobão Veras e a nossa comitiva. Foi uma porra.

Paulo Machado: A candidatura do Demerval Lobão estava de vento em popa quando um acidente automobilístico o matou. Tenho informações, não sei se verdadeiras, de que um político não muito expressivo teria aproveitado o fato, elegeu-se governador, e hoje é senador da República.

Vítor: Não é verdade: ele já era um político expressivo, notadamente na cidade de Parnaíba e adjacências. O Chagas já tinha um nome. Agora que ele foi ajudado pela memória do Demerval, não há dúvidas, e qualquer outro em seu lugar também teria sido beneficiado com a imagem que o Demerval deixou. Mas o Chagas Rodrigues (aliás a quem não vejo desde muitos tempos) é um sujeito fabuloso. Foi um bom governador do Piauí e tem se sobressaído com diversas emendas válidas na Constituinte.

Norma: Vítor, você acha que o jornalista deve ter, necessariamente, uma posição política definida?

Vítor: Deveria de ter, mas nunca a tem, e hoje menos ainda. Talvez para não atrapalhar seu ganha-pão. Tá tudo muito misturado. E esculhambado.

Kenard Kruel: A incidência de casos de úlcera, gastrite, neurose em jornalistas é muito alta. Na minha geração mesmo, a gente bebe muito, come mal, dorme pouco… Isso tem, em sua opinião, algo a ver com a profissão em si?

Vitor: É cruel, seu Kruel. Mas eu particularmente bebo publicamente porque gosto de beber. Fumo porque gosto de fumar. Aliás tudo que eu gosto faça muito… enquanto posso. E só não dei ainda o cu porque desconfio que dói. Por outro lado, já tive as doenças mais escrotas tais como cancros e tuberculose. Falta a AIDS… mas quem sabe se chega lá!!! Também pudera. Nasci no tempo da enchente e da revolta. Da varíola e do sarampo… e pertenço ao segundo decanato do signo de Escorpião pelo que já fui picado e mordido por cascavel e cachorro doido. Mas ambos morreram em consequência.

Paulo Machado: A crônica que você faz se distancia muito da crônica que se faz hoje, pelo menos na imprensa local. A sua é mais consequente, mas abrangente. Qual sua opinião sobre a crônica que se faz atualmente na imprensa piauiense?

Vítor: Como já disse, estou muito afastado da imprensa piauiense. Não tenho acompanhado o jornalismo que se faz aqui.

Cineas: Você chegou a trabalhar em algum grande jornal do Rio de Janeiro?

Vítor: Sou contra o trabalho, mas também contra a aposentadoria… Na verdade fui mais colaborador. Além de cronicar para o Suplemento Literário do Diário de Notícias, produzi para grandes revistas de então, a exemplo de O Маlho e Fon Fon.

Paulo Machado; A crônica é considerada um gênero leve, algo mais ligado a amenidade. Qual é a sua opinião sobre isso.

Vítor: Não! Para mim a crônica é um retrato fiel da realidade e esta não é feita de sabonetes e perfumes, não!

Paulo Machado: Qual sua opinião sobre a crônica feita por Carlos Drummond de Andrade?

Vítor: Sei não. O Drummond conheço mais como poeta. Sou mais chegado no gênero a Fernando Sabino e Rubem Braga, por lá. E por cá (isto é: no Maranhão) José Chagas quase sempre o Américo Azevedo Neto vez por outra.

Paulo Machado: O poeta e crítico Herculano Morais, em se livro “Visão Histórica da Literatura Piauiense”, coloca o prof. A. Tito Filho como o único cronista do Piauí. Qual a sua opinião sobre a crônica escrita por A. Tito Filho?

Vítor: Para continuar sendo franco, considero o Ari hoje como um dicionário. Um oráculo. Uma enciclopédia. Camarada que se a gente tiver alguma dúvida pode consultá-lo sem medo. Não é à toa que ele é presidente da Academia Piauiense de Letras sempre se substituindo a si próprio. Conheci o Α. Tito Filho como jornalista e grande. Cronista, não sei.

Paulo Machado: Já se disse que Teresina se ressente da falta de um poeta, de um romancista; ocorreria isso também em relação à crônica?

Vítor: Quem sabe?!

Cineas: Vítor, o que lia a sua geração? Que tipo de jornal, livros?

Vítor: A imprensa era muito pobre e quase não chegava nada aqui. Em termos de literatura muitos eram tarados por Jorge Amado. Cheguei a saber decorado talvez todo o seu livro Mar Morto.

Cineas: Ainda bem que você decorou a parte que presta.

Vítor: É. Depois disso ele não escreveu quase mais nada que empolgasse e hoje via de regra vive repetindo nos livros novos o bom dos seus livros velhos.

Cineas: E os autores estrangeiros?

Vítor: Alguns poucos liam, porque a maioria não podia comprar nem tinha onde surrupiar… Ainda não existia a Livraria Corisco e só dispúnhamos malissimamente do sebo do Sr. Arthur Carvalho. Então, apareceu uma casa de revistas do M. A. Tote e, já depois algum tempo, parece, é que o Nilo Marinho inventou sua livraria ambulante…

Paulo Machado: Desde aquela época, Teresina já se ressentia da falta de bibliotecas públicas?

Vitor: Sim.

Cineas: A despeito dessas dificuldades todas, a geração de vocês era muito bem informada. Veja-se, por exemplo, o caso do Paulo Nunes, H. Dobal. A. Tito Filho, Waldemar Sandes, você e outros tinham informações que a nossa geração, por exemplo, não tem. De onde diabo vocês tiravam isso?

Vitor: O Dobal (também, por exemplo) era um então imberbe rapaz de cultura acima do comum, mesmo para os tempos de hoje, lendo os autores estranjas no original. Outros exemplos ainda: Tito Filho era capaz de ditar meio bêbedo o artigo de fundo para um jornal começando pelo fim e o Waldemar Sandes sustentava o riso de uma plateia durante horas com trocadilhos e estórias inventadas ali. Paulo Nunes corrigia os filósofos antigos. E em outras áreas. Luiz Lapa modificava a Matemática. Raimundo Santana poderia fazer um improviso que durasse um dia… sem cansar o auditório. Murilo Couto parece que desenhava de olhos fechados. Só podia ser milagre… inclusive no meu caso que não era de nada e topava tudo.

Cineas: Você sabe quem foi o introdutor dessa praga, o “release”, na imprensa piauiense?

Vitor: Meu tempo nem tinha isso não, mas dizem que foi o senhor Armando Madeira Basto. Não sei se é verdade e, aliás, nem o conheço. Agora cá pra nós o “release” é uma excrescência. Creio que os caras pensam que os outros são analfabetos ou preguiçosos. Aquela papelada deve ser usada para se limpar o rabo.

Paulo Machado: O. G. Rego de Carvalho, H. Dobal e Paulo Nunes fizeram o movimento Meridiano que já diz tudo: rompimento. Do outro lado, havia a figura de Clemente Fortes que era o típico representante da intelligentsia piauiense. Em sua opinião, qual a importância, a contribuição de Clemente Fortes?

Vítor: O Clemente foi meu professor de Literatura e era fabuloso. Seu único defeito é que tinha ideias “meio integralistas”, mas ele respeitava a opinião da gente e não procurava incutir as mesmas na cabeça de ninguém. Possuía uma cultura extraordinária.

Paulo Machado: Da mesma geração do Clemente, havia também o poeta épico Júlio Martins Vieira, que também era integralista. Que tipo de contribuição ele deixou para a poesia piauiense?

Vítor: Para mim o Júlio era mais poeta mesmo… BOÊMIO. Não ligava muito pra essas outras coisas não. Foi meu professor e amigo, mas jamais procurou me doutrinar… nem mesmo de leve. Sabia também respeitar o pensamento da gente.

Cineas: Você e o mestre Waldemar Sandes eram boêmios incorrigíveis. Que tipo de aprontação vocês fizeram em Teresina?

Vítor: Fizemos muitas… e o Waldemar era um pouco mais irresponsável do que eu. Mas deixa pra lá que eu não desejo depois de tantos anos provocar um divórcio lá na casa dele.

Cineas: No jornal O Pirralho havia muita sátira, muita crítica. Vocês usavam pseudônimo?

Vítor: No mais das vezes, nem se assinava e, para ser justo, minha colaboração para O Pirralho foi ínfima. Os artistas mesmo eram o Alberoni Lemos e o A. Tito Filho, além do Waldemar Sandes que nasceu para essa espécie de sacanagem mesmo.

Paulo Machado: Em sua opinião, o trabalho iniciado pelo avô do Alberoni Lemos Filho, depois sequenciado por seu pai, tem continuidade?

Vítor: Não deixa de ter. O velho Semana era um homem extremamente sério. Seu filho Alberoni era brincalhão e o Filho a gente conhece… né?! Não quero dizer com isso que o Alberoni atual não seja direito. É um profissional consciente, mas também um grande gozador. Em relação ao velho Semana, relembro um episódio que revela bem o seu caráter austero. Foi o caso de que eu e o poeta Ribamar Ramos (seu genro) chegamos certa feita à sua casa e tenda de trabalho no Rio, onde nos recebeu muito bem na palma da mão, mas foi logo dizendo: “Muito prazer em recebê-los aqui, sem vocês estarem bêbedos!”.

Cineas: Você bebe há quantos anos, Vítor?

Vítor: Menino, eu faço tudo no mundo há 52 anos e meio. Tenho 62 e meio de idade (mas não espalhe) e como já disse alhures, desde os 10 que trabalho em jornal, que fumo, que bebo e babo e outras coisas que tais.

Kenard Kruel: Você participou do movimento que fundou o Sindicato dos Jornalistas do Piauí?

Vitor: Sim e também o do Maranhão, se não me engano. Em Parnaíba, movimentei o traço com o Bembém e o Fonseca Mendes, mas nunca me liguei a isso não nem pertenço a nenhum…

Paulo Machado: Você tem um extraordinário senso de humor. Não acha que está na hora de colocar isso no papel em forma de memórias?

Vítor: O último colega que me havia sugerido essa coisa foi o Sérgio Godinho, dono do Jornal O Progresso, de Imperatriz, no Sul do Maranhão. O difícil para mim é que hoje quando quero saber de minha vida recorro a alguns recortes do que publicaram a meu respeito, porque já perdi completamente o fio da meada… e até mesmo já inventaram tanta coisa comigo que até me desconheço. Das verdades, no entanto li, outro dia uma nota escrita pelo mestre Álvaro Ferreira noticiando minha chegada a Teresina (faz uma caralhada de anos) procedente mais ou menos da Argentina, dizendo que depois de alguns anos eu voltara à “terra natal” tão somente para tomar um banho no rio… porque como eu declarara “å reportagem”: já estava ficando sujo de saudades. E a notícia se finalizava informando que eu me encontrava hospedado numa canoa (“a bordo de uma canoa abandonada”) amarrada à beira do Parnaíba, nas imediações do porto da rua Paissandu.

Cineas: Algum dos seus filhos tem demonstrado interesse pelo jornalismo?

Vítor: Felizmente não. Aliás, dos filhos índios que devo de ter às pencas nas selvas da Amazônia (morei por lá), creio que não mesmo. E dos filhos legítimos (civilizados) idem. O mais velho (Jandir) é ceramista e o mais novo (Jorge Eugênio) é mais ou menos o que eu era à sua idade: meio (só meio) irresponsável e revoltoso. Quanto às duas mulheres, são elas mesmo.

Paulo Machado: Embora você resida há mais de vinte anos em Caxias, você mesmo diz que é o local onde você menos mora…

Vítor: Explico: é que nunca estou lá. Saiba que qualquer lugar do mundo só serve para se ficar no máximo 3 dias… tempo suficiente para se ficar conhecido pelas mulheres e pela polícia. O bom é você chegar e ir ao mercado e à igreja. A zona do baixo concubínio e ao cemitério… e depois se escafeder. Por oportuno lembro uma vez que fui fazer um trabalho jornalístico com os loucos de Teresina. Meu primeiro entrevistado foi o Jaime Doido (“engenheiro civil”) e a primeira pergunta que lhe fiz foi a seguinte: “Dr. Jaime, onde você mora?”. Ele respondeu: “Eu não moro!”… e foi logo saindo e nunca mais o vi.

Paulo Machado: Já que você está mais ligado ao Maranhão, quem são, em sua opinião, as figuras mais expressivas da literatura maranhense, hoje?

Vítor: E eu sei lá… lá longe pontificam o Josué Montello e o Ferreira Gullar. Rodrigues Marques. Mauritônio Meira. Adailton Medeiros. Lago Burnett. Napoleão Sabóia, que viveu na França. Rangel Cavalcante. José Sarney também, como eu da escola do jornal “O Imparcial”. Na província, ficaram soterrados inúmeros tais como Nauro Machado, Ubiratan Teixeira, José Chagas, Américo Azevedo Neto, Carlos Cunha, Luiz Augusto Cassas Nascimento Moraes Filho, Paulo Nascimento Morais, Jorge José Maria Nascimento, João Mohana, Ribamar Fiquene, Manuel Lopes, Nonato Masson, Jomar Morais, Antônio e Bernardo Almeida, Clineu Cesar Coelho, Arlete Nogueira Machado, Dagmar Desterro, tantos outros… além dos meus mortos muito queridos: Amaral Raposo, Oliveira Marques, Bandeira Tribuzi, Walbert Pinheiro, Deo Silva, nem sei quem mais… E a última safra de Caxias lá perdida ou na vizinhança… assim como os irmãos Naldson e Wybson Carvalho, Renato e Silvana Meneses, Flávio e Cid Teixeira de Abreu, J. Cardoso, Edmilson Sanches, Maria do Carmo Costa Félix, tanta gente que até esqueço o nome… o que não é novidade, pois certa feita em Salvador me esqueci de como eu próprio me chamava.

Paulo Machado: E a música, Vítor?

Vítor: Não entendo nada. Não sei nem assoviar.

Paulo Machado: Normalmente os boêmios gostam de música.

Vítor: Quando eu chego num bar onde há eletrola funcionando, a primeira coisa que peço é pra desligar… já dizia Vão Gogo que a maior invenção depois do rádio é o botão de desligar o rádio. Mesmo, não suporto essa música fresca de hoje. No máximo, um Chico Buarque de Holanda e assim mesmo bem baixinho. Quando ainda moço, suportei a flauta do poeta Moura Rego em Teresina e o violino do maestro Josino Frazão em Caxias. além do saxofone de prata do padre Delfino ali defronte, em Timon.

Norma: Percebe-se no Maranhão um interesse pela cultura muito maior do que no Piauí. A que você atribui isso?

Vítor: Nem sei. São Luís é uma ilha cheia de mistérios e de belíssimos crepúsculos (com a devida licença do vate Lago Burnett) e o Maranhão inteiro é uma terra de poetas a começar pelo Sarney que além de ser filho da cidade de Pinheiro teima ainda é em continuar sendo o presidente da República.

Norma: E a imprensa maranhense?

Vítor: Igual à daqui.

Cineas: Além de fazer um jornal “mais ou menos semanal”, o que você faz na vida, Vítor?

Vítor: Vivo. Viajo muito. Não consigo passar uma semana com a bunda presa num lugar por melhor que seja e vou nem que seja bem prali. Uma vez, lembro que levei 6 dias para cobrir este percurso pequeno de Teresina/Caxias. Tomei um pau de cana aqui e quando acordei já estava em Peritoró. Tomei outro porre lá e na volta só conseguiram me tirar do ônibus já em Campo Maior… e fiquei nesse vai-e-vem praticamente uma semana… foi bom.

Paulo Machado: E a sua família?

Vítor: Já acostumou. Ninguém estranha mais nada, inclusive a patroa. Tem jeito não.

E adeus que já me vou… não sei se pra Paris ou Girau do Ponciano no interior das Alagoas!


Pois sim. Parece que estou ficando velho. Pedi ao Cineas para me mostrar esta entrevista antes da publicação e ele me confiou este calhamaço ao qual talvez haja acrescentado algumas outras barbaridades. Os erros mesmo, ele já havia capado na datilografação. Esqueci se me perguntaram (os vândalos que me entrevistaram) se eu queria dizer mais alguma coisa. O que, depois de tudo isso? Algum conselho aos jovens… só estes: Fujam do jornalismo como mania, mas se o abraçarem sejam profissionalmente mais ou menos honestos como eu que particularmente tenho todas as faltas do mundo… inclusive falta de ar. Podem ser até “focas”, mas nunca “picaretas”. Jamais enganem nenhum prefeito por mais cretino e ladrão que ele seja. Publiquem ao pé da letra todas as suas declarações e no máximo se contentem irregularmente em bolinar alguma de suas auxiliares que seja descomprometida. Para ministro de Estado ou coisa parecida, a fórmula é outra: deve publicar justamente tudo ao contrário do que ele declarou na sua entrevista… para poder dar certo. Além de que, os primeiros às vezes pagam e estes últimos… jamais. E leiam. Tudo. Principalmente as frases de para-choques de caminhões que, se reunidas, poderão dar um bom tratado de filosofia. Aliás ainda há pouco, de Caixas para cá, consegui colher mais esta na traseira de um velho “Alpha” dizendo assim: “Quando Lampião era vivo ninguém cantava Maria Bonita”. Mas, para terminar mesmo por aqui, lembrei-me da tradicional mensagem para os mais moços… mas não! Ou seja. Vai que ontem, não sei por quê, estive me lembrando daquela velha “Mensagem a Garcia” e, como agora está tudo esculhambado mesmo, tomem esta quadra antiga de autor desconhecido e que é bem válida nos félicos e aidéticos tempos atuais. É uma mensagem dirigida aos astronautas (ainda existem?) com os seguintes versos:

“Ó você, que tem poderes plenos

de ver no espaço o que há,

se algum dia for a Vênus,

traga camisas de lá…”


O CRONISTA MALDITO

José Chagas

Há duas semanas encontrei-me com o jornalista Vitor Gonçalves Neto, hoje um homem mais ou menos comportado e diretor do mais divulgado jornal do interior do Maranhão, que é “Folha de Caxias”, jornal que apesar de ser impresso em Caxias fala às vezes mais de outros municípios do que de lá, porque Vítor sabe mais do que ninguém que jornalista nenhum no interior pode viver de um só prefeito.

No restaurante, onde nos encontramos, ele me tomou dez cruzeiros emprestados, convidando-me para no dia seguinte almoçar ali com ele. E de fato, no outro dia cumpriu a palavra, fazendo, na ocasião, uma despesa de sessenta cruzeiros, sem me explicar e sem que eu perguntasse como foi que ele conseguiu multiplicar a grana.

A quem faz milagres nunca adianta a gente perguntar nada. E Vítor, apesar de ser muito mais diabo do que santo é o mais milagroso de quantos sujeitos eu já pude conhecer na vida. Ele mesmo se admira de como é que conseguiu chegar a essa altura do tempo num mundo que não é muito de aceitar gente de sua marca, ainda não registrada em qualquer parte

Como pessoa é difícil alguém acreditar que Vítor existe. Aparece como fantasma, se é que fantasma aparece mesmo, depois se encanta de maneira assustadora, embora quase sempre deixando alívio, e o curioso é que o bandido acaba sempre dando um jeito de a gente sentir falta dele. Já eu disse aqui uma vez que é difícil alguém poder encontrar o Vítor para cumprimentá-lo, como a um indivíduo que chega. Sempre tem de ser para despedir-se, porque ele só é visto indo embora, o que é uma sorte, pois um Vitor que ficasse seria o fim da picada.

Como jornalista, ele não é o simples repórter ou diretor de jornal, É, sobretudo, o cronista maldito. Já houve quem o considerasse, com muita exatidão, como o maior e o mais característico dos cronistas destas ribeiras. À semelhança do Zé Limeira, cantador da Paraíba, que é chamado o poeta do absurdo, Vítor Gonçalves Neto poderia ser apontado como o cronista do absurdo, porque sabe dizer as coisas e tem a coragem de dizê-las como ninguém. Sua lógica fica por detrás da lógica convencional.

Não conheço qualquer outro escritor entre nós e em nossos dias que haja rompido a barreira da hipocrisia com a força e com a naturalidade com que o Vítor o fez através de suas curtas, mas descontraídas crônicas. Antes de surgir o grupo do PASQUIM, que procurou dar certa liberdade à maneira de dizer, apelando para a linguagem sem retoque do homem da rua, Vítor aqui já fazia isso, com a particularidade de curtir o palavrão com todas as letras, enquanto os do PASQUIM ainda mascaravam os termos, abreviando-os ou apresentando em forma de siglas.

Vítor não é capaz de ficar no “pqp”, no “sifu”, no “m…”, como era a norma dos que se diziam revolucionários no assunto, lá pelo Sul. Ele sempre achou que o palavrão também tem direito à sua totalidade ortográfica. E nunca fez isso para chocar ninguém, mas porque é assim de temperamento. Olhando-se bem, até o seu próprio aspecto físico já é um tanto ou quanto pornográfico.

 Quando o escritor Nascimento Moraes Filho andou colhendo material para seu livro “Esperando a Missa do Galo”, Vítor lhe deu uma crônica e ela se tornou logo um trabalho dos mais discutidos na coletânea do folclorista. Na crônica aparece um Papai Noel pederasta e fumador de diamba a despertar o cronista numa noite de Natal, quando dormia ele, bêbedo, nos fundos de uma igreja. Há quem queira condenar o livro por isso, mas Nascimento Moraes Filho se defende dizendo que Papai Noel não existe, e sendo assim, cada qual o cria como quer. Parece que o Vítor quis foi atualizar o velhinho, que em vez de entrar nas casas pela chaminé, como se dizia antes, entra por uma boca-de-fumo.

São Luís, Maranhão, Julho de 1974


Descubra mais sobre Gato Preto Cultural

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

TENDÊNCIA

Descubra mais sobre Gato Preto Cultural

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading