Neste ensaio, proponho que no livro Poemas Mínimos Anna Liz e Silvana Meneses reiteram duas tradições de sabedoria, atletismo e ritualística. A primeira é a escola de Safo de Lesbos, onde sob a bênção de Eros e Afrodite mulheres estudavam e discutiam em versos sobre o amor, a vida, a solidão e a morte. A segunda é a renga japonesa, forma e performa de composição que une o minimalismo do haicai (arte samurai) à criação coletiva em forma de encadeamento de versos que reagem uns aos outros como catanas num duelo.

Do ponto de vista de seu ambiente e povoamento, o livro é erótico. Do ponto de vista de seu jogo, é arte marcial.

Mínima lírica — ou um livro que é uma ilha

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Na Grécia Antiga, a poesia de maior prestígio era a que narrava os feitos de deuses e heróis em batalha, a poesia épica.

Nos festivais populares ou cortes aristocráticas, bardos itinerantes chamados aedos entoavam, às vezes ao longo de até cinco ou seis noites, os milhares de versos da Ilíada, da Odisseia ou de outra aventura ancestral, usando de prodigiosa memória e não menos impressionante capacidade de improvisação. Quando o público se cansava, o aedo narrava o desfecho do conto, recebia seu pagamento e seguia rumo a outra cidade, outro palácio, outra audiência. Era, portanto, um ofício perigoso, mercê de salteadores e outras ameaças das estradas, que exigia do seu oficial não só conhecimento teórico sobre armas, combates, técnicas de equitação, navegação e artesanias múltiplas a fim de descrevê-las numa cena crucial de um poema, como também exigia habilidades práticas e — mais importante — liberdade para exercê-las.

Excluídas assim da poesia épica por sua condição sociopolítica, restava às mulheres poetas naquele contexto serem guardadoras de memórias. Contar antigas lendas para as crianças e companheiras; compor e cantar canções de casamento, culto ou dança; falar de sua experiência doméstica ou íntima em poemas que entoavam dedilhando uma lira encostada no seio — e daí provém o nome do gênero lírico. Assim, não é nem exagero nem preconceito dizer que a poesia lírica nasceu como forma de expressão feminina. A escritora Irene Vallejo, na obra O infinito em um junco: a invenção dos livros no mundo antigo (2022) afirma que essa poesia exprimia “universos obrigatoriamente pequenos e locais. Mesmo assim, de forma quase milagrosa, algumas mulheres lançaram de seus recantos um olhar original e fulminaram os muros que as aprisionavam” (p. 206).

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Nascida entre os anos 630 e 620 AEC, a poeta lírica da Grécia Antiga de maior renome foi sem dúvidas Safo de Lesbos que foi não apenas uma escritora/cantora, mas também uma líder e já em seus dias uma alta referência para a cultura grega (como demonstra a discussão de Sócrates sobre o amor n’O Banquete, de Platão).

Recorrendo aos fragmentos bastante deteriorados de seus versos que chegaram até nós e às referências sobre ela, podemos reconstruir o ambiente pouco convencional em que viveu durante esses anos. Sabemos que foi tutora de um grupo de jovens, filhas de famílias ilustres. Também sabemos que se apaixonou por algumas — Átis, Dica, Irana, Anactória — em momentos sucessivos, e que juntas elas compunham poesia, faziam sacrifícios a Afrodite, trançavam coroas de flores, sentiam desejo, cantavam, dançavam e se acariciavam alheias aos homens. (Vallejo, 2022, p. 208).

Ora, o ambiente intelectual, afetivo e corporal do livro Poemas Mínimos pode muito bem ser lido como uma analogia (no espaço da escrita) desse ambiente descrito acima, que foi promovido por Safo em Mitilene, capital de Lesbos, em meados do século V AEC.

Escrito por duas mulheres, o livro traz textos de Apresentação e Prefácio, bem como as epígrafes de cada uma de suas cinco partes assinados também por mulheres. Luíza Cantanhede, Anna Hatherly, Wanda Cunha, Laura Amélia Damous, Clarice Lispector, Cecília Meirelles, Ana Cristina César, Sophia de Mello, Dagmar Desterro, Anna Liz, Silvana Meneses — vozes & vozes e corpos & corpus de mulheres de diferentes tempos e lugares, entretecendo consigo mesmas não “coroas de flores”, mas subjetividades e linguagem num encontro festivo de sacrifícios e carícias “alheio aos homens”.

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Nesses textos, elas levantam questões de alta densidade sobre o ser das coisas materiais e abstratas e manufaturam delicadas respostas em versos que se estendem — como diz o poema de Anna Liz — “na vertical”, como uma linha que corta o infinito no sentido da profundidade, não da extensão. Num mundo literário que — mesmo 2.500 anos após o suicídio da que foi chamada de “décima musa” — continua sendo, como o Mar Egeu da Antiguidade, um território predominado por homens, o livro Poemas Mínimos emerge como uma ilha de femininidades em concerto.

O erotismo que decorre desse povoamento exclusivamente feminino não é o da homossexualidade moderna (embora ele não esteja ausente em uma outra das femininidades possíveis que o livro apresenta). Trata-se antes de tudo de erotismo no sentido de Safo que considerava Eros, deus grego do amor, um “tecelão de mitos”. E o mito, como se sabe, era a dimensão suprema do conhecimento: o conhecimento do mundo narrado em forma de poesia. O erotismo (entendido então como relação de amor) era em essência o encontro que fecundava a arte. Mas diferente do erotismo platônico que reduzia toda experiência amorosa à esfera intelectual, Safo não rejeitava o corpo nem a paixão. A admiração, o ciúme, o primado da impressão pessoal sobre o Logus universal em questões de amor — o abraço amigo sob o açoite dos ventos frios do Norte — tudo isso participava da tecelagem de Eros.

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Poemas Mínimos, sob tais prismas, é erótico pelo menos em dois sentidos: um imediato e forte, outro difuso e profundo.

No primeiro, há os poemas cujo tema, imagens ou narrativas tratam de questões sensuais. A afirmação do desejo e do ato sexual, tanto envolvendo outra pessoa como envolvido na intimidade solitária e imaginativa da poeta. Requintados recortes de cenas e sensações que saltam de uma autora a outra, de uma citação a outra e conduzem uma viagem entre corpos que se conectam pelas vias da linguagem, sem jamais se reduzirem um ao outro, cada qual afirmando sua própria dor e prazer, suas próprias perdas e ganhos.

No segundo sentido, ressalta o afeto profundo que une essas mulheres distantes num mesmo espaço literário (“espaço literário” no sentido de Blanchot: impossibilidade de falar, impossibilidade de ficar em silêncio). A historiadora Mary Del Priore, em estudo sobre o cotidiano das mulheres no Brasil colonial, vislumbra os cômodos das casas de família, onde protegidas dos olhares masculinos as mulheres acolhiam umas às outras, às vezes com carícias sexuais, mas predominantemente com escuta, partilha, segredos, compreensão.

É na expressão lírica desses multiversos possíveis de amores entre mulheres que o erotismo do livro ganha seu sentido mais profundo.

Concisão, precisão e elegância — poesia como arte marcial

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A imagem do militar como um imbecil musculoso tem suas raízes na Europa medieval que, conforme a ética cristã de desprezo pelo corpo (irreconciliável com o espírito), criou uma aristocracia guerreira analfabeta e inculta paralela a uma elite clerical erudita e sedentária — um forte e burro, o outro intelectual e fraco. Essa imagem alcança seu ápice na cultura contemporânea no cinema norte-americano dos anos 1980 em dois arquétipos: o brutamontes descerebrado e infantilizado (cujos maiores avatares são o Rambo de Sylvester Stallone e o Conan de Arnold Schwarzenegger); e o típico nerd dos filmes de High Scholl, sempre franzino, feio e amedrontado, escondido atrás de livros, quadrinhos e computadores.

O lema romano mens sana in corpore sano, porém,já índica que pelo menos em parte da cultura europeia antiga o complexo corpo/espírito não estava dicotomizado e a imagem do guerreiro não mutilava do corpo bem treinado o intelecto desenvolvido. Na mesma Grécia que deu à luz a poesia de Safo, os centros de treinamentos militares da aristocracia guerreira, os gymnasion, não eram espaços dedicados apenas aos treinamentos físicos, tanto que, pelo menos desde a invenção das bibliotecas, sempre havia uma em seu complexo. Além disso, entre os esportes olímpicos, a poesia e a retórica faziam par com o pugilismo e a arquearia, por exemplo.

Sócrates era um veterano de guerra. Seu discípulo Arístocles ganhou o apelido de Platão supostamente em referência a seus ombros invulgarmente largos. A escola que este fundou, a Academia, foi assim nomeada em homenagem a um herói mitológico.

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Mas é no Japão “medieval” que o amálgama entre artes marciais e artes literárias alcança sua melhor formulação. O Bushidō ou “caminho do guerreiro” — código de ética tradicional, formalizado no século XVII durante o xogunato Tokugawa e popularizado no Ocidente no XIX durante a Era Meiji que, ao menos idealmente, orientava o treinamento e a conduta dos samurais — não restringia sua formação a um modelo de obediência e eficácia mecânicos. Aliás, a obediência sequer era referida como virtude, mas a lealdade segundo a honra; a força e a coragem não descartavam a polidez e a cortesia.

O ideal do Bunbu-ryōdō (“caminho da espada e do pincel”) sintetizava um projeto ético/estético que assimila atletismo, coragem, intelectualidade e arte e erigiu na cultura japonesa a imagem do soldado sábio e artista. Entre as disciplinas obrigatórias na formação desse soldado estavam as artes da equitação e da luta corporal sem armas (o caratê) lado a lado com a preparação de chás, a caligrafia e o shibari (amarrações ornamentadas com cordas). Mas um paralelo especial pode ser traçado entre o kendô (“caminho da espada”) e o haidô (“caminho do haicai”) — a esgrima e a poesia. O haicai encarnava como ideal de sensibilidade e expressão a mesma proposta do kendô de precisão e concisão. Assim como o golpe perfeito da catana deveria ser veloz, certeiro e limpo, contendo em um mínimo de movimentos o máximo de reflexos, também o verso do haicai deveria condensar no mínimo de palavras e na expressão do instante a narrativa de um mistério simultaneamente ínfimo e cósmico.

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Se na Europa antiga e medieval os aristocratas contratavam bardos e menestréis para animar suas festas de corte com longas baladas de heróis, nos eventos cortesãos do Japão muitas vezes samurais e/ou gueixas se empenhavam nas chamadas rengas. Tratava-se de um jogo poético em que o primeiro participante lançava um poema de dois versos em desafio a outro que lhe respondia com um haicai (fosse de memória ou de improviso), formando um núcleo de cinco versos. Os ataques e reações prosseguiam e, para deleite dos presentes, a renga podia prosseguir por muito — uma longa composição feita à maneira de um duelo, em que o conjunto sustentava sua coerência, mas cada poema mantinha independência formal, temática e dicional.

É exatamente esse jogo a um tempo esportivo, lúdico, formal e ritual que o livro Poemas Mínimos atualiza em sua estrutura. Silvana Meneses, Anna Liz e suas amigas epigrafadas vão laçando precisos golpes poéticos lírica após lírica. Sem se preocuparem com narrar uma epopeia, elas picotam com lâmina/língua afiada no esmeril da leitura, da técnica e da vidência o universo da existência humana, a partir de suas sensibilidades e experiências eminentemente femininas.

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Em seu prefácio, Laura Amélia Damous define o livro como “imensa poesia mínima”. A tensão dialética expressa nessa fórmula capta a atmosfera duelista que envolve o conjunto. Mas, como apontei no começo deste texto, tal duelo é da ordem do ritual, não da hostilidade — é, como a renga, duelo lúdico, ornamental que não visa a vitória de uma duelista sobre a outra, mas a composição em conjunto de um tecido.

A noção de minimalismo da literatura moderna ocidental é oriunda de um minimalismo arquitetônico pós Primeira Guerra Mundial que respondia a necessidades econômicas de redução de custos, otimização de espaços e de aceleração do tempo. O minimalismo de Poemas Mínimos, por sua evidente influência da estética do haicai, é de outra ordem — decorre da ambição por precisão, concisão e elegância herdados do kendô que visa não responder a uma aceleração do tempo, mas o oposto disso. Longe de tentar garantir uma leitura mais rápida, os poemas de Silvana Meneses e Anna Liz nos convidam a nos demorarmos diante de cada cena e nos entretermos em seus entrelaçamentos. Nesses poemas, o tempo não é uma linha, não é uma flecha, é um poço, uma fonte termal.

Existe, pois, um duplo sentido em que essa poesia mínima se imensifica. O primeiro é o da extensão e densidade, em que cada poema provoca o próximo, cada lírica conduz a outra e assim ocorre uma expansão espacial na direção do infinito e uma acumulação de camadas. O segundo é o da profundidade e intensidade, em que cada poema exige uma interrupção do curso do tempo mecânico e entrada no fluxo líquido de um tempo intenso — mergulho, relaxamento, asfixia. O primeiro sentido faz referência ao duelo em si, em que as sequências dos golpes compõem a narrativa da luta. O segundo sentido faz referência ao instante em que o corte é feito na carne — por mais que dure uma fração de segundos, aquele instante persiste num tempo não quantificável, interior, subjetivo, tão lento que muitas vezes o corte só se percebe feito quando a lâmina já se distanciou.

É nesse sentido que Poemas Mínimos é também um experimento de arte marcial.

Shibari — a arte da amarração

Gostaria de enfeixar este ensaio valendo-me também de uma analogia com uma disciplina concomitantemente erótica e samurai: a arte das amarrações chamada shibari.

Não é de se espantar que soldados profissionais eventualmente fizessem e trasladassem prisioneiros. Mas numa sociedade profundamente estratificada e ritualizada como a japonesa, especialmente no período dos Xoguns, mesmo entre prisioneiros as diferenciações sociais deveriam ser claramente assinaladas. Um camponês podia ser amarrado com um nó simples, mas um daimio (equivalente japonês do senhor feudal europeu) merecia uma amarração elaborada que informasse em um golpe de vista que não se tratava de um prisioneiro qualquer. Não se amarrava uma dama da corte com o mesmo nó que se prendia uma gueixa, nem uma gueixa com o mesmo nó de um ladrão.

Em contraponto ao minimalismo do haicai, o shibari samurai se afirmava pelo acúmulo de volteios e ornamentos: nós não eram simplesmente funcionais, mas tecelagens de uma narrativa que contava tanto sobre a qualidade da presa quanto sobre o estilo do captor. Assim são os ensaios, eles são feitos de sobras e de excessos. O autor de um ensaio não é o comentador de um texto, é um sequestrador — ele escreve sobre o texto lido com sua própria caligrafia, e tece sobre eles os seus próprios nós, guardando apenas o dever ético de respeitar o valor do texto sequestrado.

Foi com semelhante ânimo que escrevi este opúsculo, propondo uma leitura talvez herege do livro de Anna Liz e Silvana Meneses. Iniciei-o afirmando que pretendia demonstrar que em Poemas Mínimos as autoras, em primeiro lugar, erigiram um espaço — espaço literário — povoado exclusivamente por mulheres que se uniam por laços de amor feminino de amizade, acolhimento e desejo que reiterava a escola de Safo de Lesbos numa ilha de femininidade no território secularmente apoderado por homens da Literatura. Em segundo lugar, prometi argumentar que o livro era também um experimento de kendô, pois tanto a escrita duelista que remete à renga japonesa quanto o gesto que essa escrita perpetra, que busca no movimento mínimo o corte mais profundo, reiteram princípios antes visto no amálgama literário e marcial das artes samurais do haicai e do catana.

Penso ter cumprido minha promessa enquanto puxava as fibras de contextos históricos, filosofias ancestrais, analogias e comparações, dando voltas em torno do tema a fim de enlaça-lo em um ponto preciso. Deixo-o agora suspenso no ar, não como quem alcançou uma última palavra, mas como quem atou seu último nó.

Caxias, 04 de dezembro de 2025


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