lá vem o homem da mala
o vendedor de malícias
que é texto, é poeta e é fala
que é sábio das coisas fictícias
vem o profeta da rua
o alquimista das calçadas
que é lança, é dragão e é lua
o velho errante das estradas

hoje ele trouxe elixires
que curam até mal de amor
de pétalas pinçadas da iris
das virgens voyeres em flor
hoje ele nos trouxe emplastros
que curam as dores do mundo
misturas das luzes dos astros
e preces do moribundo

lá vem o homem da mala
malandro, maluco, maldito
wally salomão abre alas
alado cantor de detritos
um roberto piva baiano
uma pira-poesia anti-olimpo
patativampiro & insano
minerando um esgoto garimpo

lá vem a mala sem homem
palavra-valise perdida
nem tempo nem bicho lhe come
valei-me, palavra bandida!
na praça, uma obra sem dono
um poema sem assinatura
sonho sem sonhador e sem sono
sopro a encher músculo e ossatura

lá vem o artista sem fama
sem nome, sem grana, sem medo
cem anos de solidão inflamam
suas botas, eterno degredo
morena memória na boca
memória do corpo e do céu
brandindo rimas numa língua rouca
brandindo runas num idioma réu

maliciosamente, como um gato, ele se esgueira nas beiradas da terra em busca de pequenas conquistas. ninguém sabe o que ele quer, mas se sabe o que ele faz. no dia em que ele abrir aquela pequena mala de peculiaridades, o céu vai se rachar, o mundo vai se distorcer e o que vem depois — é feira


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